No livro “Francisco de Assis – O Maníaco do Parque”, a história por trás desse serial killer ganha uma camada extra de complexidade. Ullisses Campbell, o autor, revelou detalhes que mexem com a cabeça de qualquer um: Francisco de Assis, conhecido por aterrorizar São Paulo nos anos 90, tinha um desejo bem peculiar – ele queria ser mulher. Isso teria influenciado as escolhas das suas vítimas, que, de alguma forma, refletiam as características que ele idealizava e, talvez, até gostaria de ver em si mesmo.
O Campbell, que mergulhou fundo nos laudos e nos documentos do caso, explicou que teve acesso até aos famosos resultados do Teste de Rorschach (aquele dos desenhos com borrões que “revelam” o que se passa na cabeça da pessoa). Esses laudos foram uma das peças principais que ajudaram a confirmar a culpa de Francisco de Assis e a entender melhor o que se passava na mente dele. Esse teste, junto com outros documentos, mostrou uma série de características pesadas do Francisco: inveja, ódio, agressividade, insensibilidade e, claro, uma confusão total em relação a ele mesmo e ao que ele queria.
Conforme avançavam as investigações, os policiais e psicólogos foram descobrindo cada vez mais detalhes sobre a personalidade dele. Além desse desejo de ser mulher, havia uma série de traços que só foram ficando mais claros ao longo do processo – coisas como impulsividade, frustração, traumas antigos e uma série de fantasias e fetiches que ele, ao que parece, trazia desde jovem.
E tem mais: o Francisco era obcecado por certos detalhes das mulheres que escolhia como vítimas, e muitos desses traços estavam diretamente ligados ao tipo de imagem feminina que ele desejava, de certa forma, para ele mesmo. Altura, cabelo e até a postura das mulheres eram características que chamavam sua atenção. Era como se ele enxergasse nelas o ideal de feminilidade que ele próprio não conseguia alcançar.
Ao longo do livro, Campbell descreve o passado sombrio e cheio de reviravoltas que, aparentemente, empurrou Francisco para uma vida de crimes horríveis. Não que isso justifique qualquer coisa, mas é fato que muitos dos problemas de Francisco começaram lá atrás, na infância dele. Entre traumas e um lar que, pelo visto, não ofereceu a mínima estrutura emocional, ele foi crescendo com um mundo interno cheio de frustrações e confusões.
Mas aí entra a questão que Campbell também levanta em seu livro: será que esses traços eram desculpa? Ou será que foi uma somatória de fatores que explodiram em violência? Claro, a mente de um serial killer é algo que a maioria de nós nem consegue entender direito. Mas, segundo o autor, o Francisco é um exemplo de como desejos reprimidos, frustrações e problemas psicológicos podem, em casos extremos, tomar um rumo sombrio e assustador.
Esse passado todo de traumas e sentimentos distorcidos é assustador, mas, de alguma forma, também humaniza a história, ainda que de uma maneira desconfortável. No fim das contas, o livro não só mostra a trajetória do assassino, mas também levanta debates e questionamentos sobre o que pode acontecer com uma pessoa que passa por uma vida cheia de frustrações e desejos que jamais são aceitos – seja pelos outros ou por ela mesma.
A leitura de “Francisco de Assis – O Maníaco do Parque” é tensa e mexe com qualquer um, porque a gente se depara com uma mente cheia de sombras e desejos reprimidos, e, querendo ou não, isso nos faz pensar: o quanto de nossas experiências, traumas e desejos não molda quem somos? Campbell deixa isso no ar.