O Rodolpho Tamanini Netto, um artista plástico de São Paulo, faleceu de uma maneira trágica, aos 73 anos, após a casa dele ser invadida por uma enxurrada no bairro de Pinheiros, na zona oeste. O pintor, que sempre morou na mesma casa, já enfrentava problemas de alagamentos na rua Belmiro Braga, que fica bem perto do famoso Beco do Batman.
Segundo Jacques Ardies, amigo do artista e dono da galeria que representava Rodolpho, ele morava ali há muitos anos e, por conta das chuvas frequentes, vivia lidando com alagamentos. “A gente sempre se preocupava e ligava pra ele pra ver se estava tudo bem, se tinha perdido alguma coisa, ou se a água tinha invadido. Ele morava no andar de cima, então, normalmente, não era tão afetado”, comentou Ardies.
Rodolpho não era casado e não tinha filhos. Ele ficou com a casa depois da morte dos pais e, com o tempo, a transformou num refúgio, onde teve uma convivência diária com o caos das enchentes. De acordo com Ardies, ele tomou algumas precauções, como instalar um portão de aço para tentar evitar que a água entrasse na casa. Mas foi justamente ao tentar verificar o portão durante a tempestade que ele acabou sendo pego de surpresa. Um carro arrastado pelas águas bateu no portão e danificou a estrutura, facilitando a entrada da água na casa, o que, infelizmente, resultou na morte de Rodolpho. Se ele tivesse ficado dentro de casa, a tragédia poderia ter sido evitada, lamentou o amigo.
As autoridades confirmaram que a morte foi registrada como suspeita e o caso foi registrado no 14º DP, em Pinheiros. A informação sobre o acidente e a morte de Tamanini comoveu muitos, especialmente porque ele era muito conhecido na cena artística.
Nascido em 1951, Rodolpho Tamanini dedicou sua vida ao universo das artes, começando sua carreira aos 17 anos. Conhecido por suas obras que retratavam a vida urbana, principalmente de São Paulo, Tamanini usava a cidade como inspiração. Seus quadros retratavam pontos icônicos de São Paulo, como o Aeroporto de Congonhas, a Estação da Luz, o Vale do Anhangabaú, e o Parque do Ibirapuera. Ele também pintou paisagens como o nascer do sol no Pico do Jaraguá, na zona norte da cidade, e as memórias de infância em sua terra natal.
Um de seus quadros mais notáveis, chamado “A Enchente”, de 2008, retrata a própria realidade das chuvas e suas consequências para a cidade. A água invadindo as ruas e afetando os carros e as pessoas, era uma imagem que Rodolpho sentia ser importante representar, já que ele mesmo era afetado por esse problema.
Jacques Ardies ainda lembra que Rodolpho tinha uma forte conexão com a cidade e seus problemas. Ele estava sempre atualizado sobre os acontecimentos e usava sua arte para expressar o que vivia no dia a dia. “Ele estava muito antenado, sempre pintando a realidade de São Paulo”, diz Ardies.
Rodolpho Tamanini era considerado um artista urbano, com um estilo único e uma visão criativa impressionante. Ele fez mais de 30 exposições individuais, incluindo algumas internacionais, como na França, EUA, Alemanha e Suíça. Dentro do Brasil, também esteve presente em exposições de destaque em cidades como Rio de Janeiro, Curitiba e Brasília.
Ao longo da carreira, Tamanini recebeu vários prêmios e medalhas de reconhecimento, como as de ouro em 1978 e 1979, e uma de bronze em 1975. Seu talento era respeitado por muitos, e sua obra continua sendo admirada até hoje. “Ele teve uma carreira muito respeitada. Seu trabalho era colecionado por várias pessoas”, diz Ardies.
Além dos temas urbanos, Rodolpho também gostava de explorar a vida no litoral, a natureza e até as periferias das cidades, mas sempre com uma visão positiva, tentando mostrar a alegria do povo e a beleza dos lugares. Mesmo com a perda trágica, seu legado como um artista urbano que soube traduzir a cidade em cores e formas vai seguir vivo na memória de todos.