El Helicoide: De Símbolo de Progresso a Sinônimo de Medo na Venezuela
Um edifício impressionante, que é uma espiral gigante, foi pensado para ser um marco do avanço da Venezuela. No entanto, ao longo dos anos, esse mesmo local se transformou em um símbolo de temor para muitos cidadãos venezuelanos. A estrutura, que abriga o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN), é conhecida como El Helicoide e, atualmente, é uma prisão aonde dezenas de detentos e organizações têm denunciado casos de tortura e violações graves dos direitos humanos. Esse tipo de alegação é constantemente negado pelo governo da Venezuela.
Um lugar que marca a memória
Localizado na região centro-sul de Caracas, El Helicoide se destaca não apenas por seu formato helicoidal, mas também pela sua grandiosidade, ocupando uma área de 60 mil metros quadrados. Para muitos que conseguiram sair de lá, as lembranças são tão vívidas que se tornam impossíveis de esquecer. Os relatos de superlotação, condições sanitárias precárias, extorsão e uma gama de abusos são algumas das queixas que emergem sobre este local de detenção.
Um exemplo marcante é a declaração do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que, em um evento no Kennedy Center, se referiu a Nicolás Maduro, o atual ditador da Venezuela, dizendo que “ele tem uma câmara de tortura no centro de Caracas que agora estão fechando, mas ele torturou pessoas.” Tal afirmação foi amplamente interpretada como uma referência direta a El Helicoide.
História de um edifício icônico
A construção de El Helicoide teve início em 1956 e se estendeu até 1961. No começo, a intenção era criar um pavilhão de exposições voltado para as indústrias de petróleo e mineração do país. Com o tempo, o plano mudou e passou a ser a criação do que seria o maior shopping center da América Latina, idealizado pelos arquitetos Jorge Romero Gutiérrez, Pedro Neuberger e Dirk Bornhorst.
Erguido sobre uma colina rochosa, o edifício conta com sete níveis em espiral, apresentando duas espirais entrelaçadas e quatro quilômetros de rampas para veículos. A ideia era que os consumidores pudessem estacionar em frente a qualquer uma das mais de 300 lojas que operariam ali, como descrito no livro The Downward Spiral: The Descent from Shopping Center to Prison of the Helicoide, de Celeste Olalquiaga e Lisa Blackmore.
Durante sua construção, a estrutura moderna e futurista foi amplamente admirada, chegando a ser destaque em capas de revistas internacionais e até mesmo exibida no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) em 1961. Contudo, essa fama inicial foi seguida por um período de estagnação. Após a falência da construtora em 1961, as obras foram paralisadas e o prédio ficou inativo por vários anos até 1975, quando passou a ser de propriedade do estado.
Transformação em prisão
Em 1985, os serviços de inteligência venezuelanos alugaram a estrutura para utilizar os andares inferiores, que hoje abrigam as celas dos prisioneiros. As acusações sobre o local se tornando um centro de violação dos direitos humanos começaram a ganhar notoriedade após as manifestações massivas de 2014 e 2017. Segundo Olalquiaga, historiador cultural, essa realidade foi exposta ao mundo.
Um novo começo?
Recentemente, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, anunciou que El Helicoide, a prisão mais temida do país, será transformada em um centro de serviços sociais e esportivos para as comunidades. “Decidimos que as instalações de Helicoide, que hoje funcionam como centro de detenção, serão transformadas em um centro social, esportivo, cultural e comercial para a família policial e para as comunidades vizinhas”, disse Rodriguez.
Relatos de tortura e luta por justiça
Em 2019, um relatório de Michelle Bachelet, a então chefe das Nações Unidas para os Direitos Humanos, trouxe à luz a existência de torturas e tratamentos desumanos contra pessoas detidas por exercerem seus direitos civis. Maduro, por sua vez, desqualificou o relatório como “cheio de mentiras e manipulação”. O governo continua a insistir que os direitos humanos e o devido processo legal são respeitados para todos os detidos no país.
Um exemplo de resistência é Victor Navarro, que foi preso em janeiro de 2018 sob acusações de incitação à violência e conspiração. Ele se declarou inocente e teve sua detenção considerada “ilegal e arbitrária” pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Em relato à CNN, Navarro descreveu sua experiência, afirmando que “toda essa situação é torturante” e expressou um desejo de compartilhar sua história, o que o levou a criar um projeto de realidade virtual que recria as condições do centro de detenção e apresenta depoimentos de ex-detentos.
El Helicoide segue sendo um símbolo complexo na Venezuela, representando tanto uma visão de modernidade quanto um espaço de dor e violação de direitos humanos. A transformação proposta pode ser um passo importante, mas o caminho para a verdadeira justiça e recuperação ainda é longo e repleto de desafios.