A História de Coragem de Amanda Souza: Superando a Violência Vicária
Em um mês de dezembro de 2022, a delegada Amanda Souza, da Polícia Civil de Belém, tomou uma decisão difícil. Diante do ciúme doentio do parceiro, que parecia se agravar a cada dia, ela decidiu colocar um ponto final em um relacionamento que não tinha mais futuro. Amanda sabia que a relação estava se tornando insustentável e que, a cada dia, o ambiente se tornava mais tóxico e perigoso. Sete meses depois, em julho de 2023, sua vida mudaria para sempre com uma tragédia inimaginável: seu ex-marido tirou a vida de seus dois filhos, Marcelo, de 12 anos, e Letícia, de 9.
O dia fatídico começou com uma mensagem perturbadora do ex-parceiro, que dizia que o futuro dela seria repleto de tristeza e solidão. Sem saber o que estava por vir, Amanda foi trabalhar na delegacia, seguindo sua rotina, mas com um peso no coração. Às 16 horas, o telefone tocou. Era ele, e com uma frieza aterrorizante, anunciou: ‘Parabéns, você conseguiu o que queria: eu matei os seus dois filhos’.
A Violência Vicária e seu Impacto
Amanda se viu em meio a um turbilhão de emoções. O crime cometido por seu ex-marido era um exemplo cruel da chamada violência vicária, uma forma de agressão onde o agressor atinge os filhos ou pessoas próximas para causar um sofrimento emocional profundo à mulher. Essa forma de violência é muitas vezes ignorada pela sociedade, mas os danos são profundos e devastadores. Ao ler notícias sobre um caso semelhante que ocorreu em Itumbiara (GO), Amanda reviveu a dor daquela manhã de julho. Um secretário de governo, Thales Machado, havia atirado contra seus filhos antes de tirar a própria vida, replicando um padrão de violência que se tornara comum, mas não menos horrendo.
No Brasil, a falta de dados concretos sobre a violência vicária dificulta o desenvolvimento de políticas públicas eficazes. O Mapa Nacional da Violência de Gênero começou a coletar dados sobre essa forma de violência em 2024, revelando que houve 904 casos registrados em 2023. A maioria desses casos ocorreu na Europa, frequentemente em situações de disputa de guarda de crianças.
Empatia e Culpa Injusta
Ao tomar conhecimento do trágico caso de Sarah Araújo, que também havia perdido os filhos nas mãos do ex-parceiro, Amanda ficou profundamente abalada. Ela se identificou com a dor daquela mãe, lembrando-se de sua própria perda. No entanto, o que mais a incomodou foram os comentários cruéis nas redes sociais que culpavam as mães pela tragédia. A sociedade, em um ato de crueldade, tentava justificar a violência, muitas vezes culpando as mulheres pelo que ocorrerá, como se uma suposta traição pudesse legitimar a morte de crianças inocentes. Amanda, com sua experiência, reconhece essa falta de empatia como uma expressão do machismo que permeia a sociedade.
O mais chocante para ela foi perceber que muitas das vozes que culpavam as mães eram de outras mulheres. Em um país onde o feminicídio atinge números alarmantes, essa dinâmica de culpa e silenciamento é um reflexo de uma cultura que ainda não aprendeu a proteger suas mulheres e crianças.
A Superação e o Caminho para a Liberdade
Amanda, que viveu um relacionamento abusivo por 20 anos, compartilha sua jornada de autodescoberta e libertação. Desde que se mudou para Belém para se tornar delegada, ela começou a perceber os sinais de controle e ciúme que seu ex-marido exercia sobre ela. Ele a vigiava de perto, exigindo saber onde estava e com quem, e sempre tentava controlar sua vida de forma dissimulada.
Após decidir terminar o relacionamento, o ex-marido cometeu o ato brutal que destruiu sua família. Amanda foi a primeira a chegar em casa e encontrou os corpos dos filhos. A ligação que recebeu naquele dia não foi apenas uma mensagem de terror, mas uma tentativa de colocar a culpa sobre seus ombros. Ele queria que ela se sentisse responsável pelo ato insano que cometeu, um padrão comum entre abusadores, que tentam desviar a culpa para suas vítimas.
Dicas para Reconhecer e Sair de Relacionamentos Abusivos
A delegada Amanda Souza compartilha conselhos valiosos para mulheres que possam estar em relacionamentos abusivos. O primeiro passo é o autoconhecimento. Muitas mulheres permanecem em relações tóxicas devido a uma dependência emocional que as impede de ver a realidade. Entender o próprio valor e buscar a independência financeira são essenciais para romper esses laços. Além disso, ela incentiva as mulheres a se informarem sobre os sinais de abuso e a procurarem apoio.
A história de Amanda é um poderoso testemunho de resiliência e coragem. Hoje, ela se dedica a ajudar outras mulheres a reconhecerem os sinais de abuso e a se fortalecerem, planejando também estudar a violência vicária para trazer mais informações e luz a esse tema tão importante. A luta contra a violência contra a mulher e a proteção das crianças deve ser uma prioridade na sociedade.