A morte da policial militar Gisele, encontrada com um tiro na cabeça dentro do próprio apartamento, no bairro do Brás, região central de São Paulo, na manhã da última quarta-feira (18), chocou colegas de farda e moradores da vizinhança. O caso, que a princípio foi registrado como suicídio consumado no 8º Distrito Policial, depois passou a ser tratado também como morte suspeita. A Polícia Civil agora tenta entender o que realmente aconteceu naquele imóvel onde o casal vivia.
De acordo com o boletim de ocorrência, foi o próprio marido, um tenente-coronel da PM, quem encontrou Gisele caída no chão, com a arma em uma das mãos e muito sangue ao redor. Ela ainda foi socorrida às pressas e levada ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, mas infelizmente não resistiu aos ferimentos. A cena descrita por quem atendeu a ocorrência é forte, difícil até de imaginar.
Mas o caso ganhou contornos ainda mais delicados depois do depoimento da mãe da policial. Em relato emocionado, ela disse que a filha vivia um relacionamento extremamente conturbado. Segundo a mãe, o oficial seria abusivo, controlador e até violento em algumas atitudes. Afirmou que Gisele era proibida de usar batom, salto alto e perfume. Parece coisa de filme antigo, mas não, teria sido a realidade dela. Também havia cobranças rígidas em relação às tarefas domésticas, como se ela tivesse que seguir um manual dentro de casa.
Um ponto que chama atenção é que, segundo a mãe, quando Gisele comentou sobre a possibilidade de se separar, o marido teria enviado uma foto pelo celular onde aparecia com uma arma apontada para a própria cabeça. Um gesto que, no mínimo, levanta questionamentos. Na última sexta-feira (13), poucos dias antes da tragédia, Gisele teria ligado para a mãe dizendo que não aguentava mais a pressão e que queria colocar um fim no casamento. Era um pedido de socorro? Talvez. Difícil afirmar.
Apesar das acusações, até o momento o tenente-coronel não é oficialmente considerado suspeito. Procurada, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou apenas que as diligências estão em andamento e que o caso segue sob investigação. Em nota, a pasta explicou que a ocorrência foi inicialmente registrada como suicídio no 8º DP (Brás), mas depois foi incluída a natureza de morte suspeita para apurar melhor as circunstâncias.
O portal g1 informou que tenta localizar a defesa do oficial, identificado como Geraldo.
Na versão apresentada por ele à polícia, o relacionamento começou em 2021, quando conheceu Gisele por meio de uma amiga em comum. Em 2023, oficializaram o namoro e, no ano seguinte, se casaram. Ele afirmou que assumiu as despesas da casa e ajudava inclusive com a escola da filha dela.
Segundo o depoimento, os problemas teriam começado em 2025, quando ele passou a trabalhar no 49º Batalhão. O oficial relatou que foi alvo de denúncias anônimas na Corregedoria da PM, que seriam motivadas por vingança de colegas. Essas denúncias envolviam um suposto relacionamento extraconjugal, algo que ele nega. Ainda de acordo com sua versão, os boatos chegaram até Gisele, gerando crises de ciúmes e discussões constantes. O clima teria ficado tão pesado que os dois passaram a dormir em quartos separados.
Na manhã da quarta-feira, por volta das 7h, ele disse que foi até o quarto da esposa para propor a separação, já que “o relacionamento não estava mais funcionando”. Segundo o relato, Gisele se levantou nervosa, pediu que ele saísse e bateu a porta. Ele então foi tomar banho. A arma, conforme declarou, ficava sobre o armário no quarto onde ele dormia.
Cerca de um minuto depois de entrar no banheiro, ouviu um barulho que pensou ser de porta batendo. Ao sair, encontrou Gisele caída no chão. Um minuto. Sessenta segundos que agora são analisados com lupa pela investigação.
O caso segue cercado de perguntas. Em tempos em que tanto se fala sobre violência doméstica e saúde mental — temas cada vez mais debatidos no Brasil — a morte de Gisele levanta reflexões dolorosas. O que de fato aconteceu naquele apartamento no Brás? A resposta, por enquanto, ainda está nas mãos da investigação.