Trump e o Estado da União: Reflexões Sobre um Discurso Controverso
No dia 24 de janeiro, Donald Trump proferiu um discurso que se tornou o mais longo da história recente do Congresso dos Estados Unidos, com quase duas horas de duração. Durante esse tempo, ele transformou o Capitólio em um palco de autoafirmação e vaidade. O discurso, que fez parte do Estado da União, foi essencialmente uma apresentação de suas conquistas, mesmo diante de um cenário onde sua popularidade está em queda e o eleitorado parece mais dividido do que nunca.
A Era de Ouro da América
Trump iniciou seu discurso com a declaração de que os Estados Unidos estão vivendo uma “Era de Ouro”, uma expressão que remete à Gilded Age do final do século XIX. Essa época foi marcada por um crescimento econômico acelerado, mas também por desigualdades extremas e tensões sociais. O uso desse termo por Trump parece ser uma tentativa de destacar um período de prosperidade, embora a ironia do conceito original de Mark Twain, que sugeria que a aparência de riqueza escondia problemas profundos, não tenha sido considerada.
Um Discurso de Conquistas e Contradições
O discurso de Trump focou em apresentar uma lista de indicadores econômicos positivos, como recordes históricos da bolsa de valores, redução do desemprego e queda nos preços dos combustíveis. No entanto, é importante notar que esses números, embora impressionantes, são seletivos. Por exemplo, a economia cresceu apenas 2,2% em 2025, um número inferior ao dos anos anteriores, e a inflação, embora tenha diminuído, ainda afeta o custo de vida de muitos americanos. Moradia, eletricidade e alimentos continuam a pesar no orçamento das famílias.
Além disso, a riqueza nos Estados Unidos está concentrada nas mãos de poucos; os 10% mais ricos detêm 87% de toda a riqueza acionária, enquanto metade da população não possui ações. Isso levanta questões sobre a real distribuição dos benefícios do crescimento econômico.
Tarifas e Soberania Comercial
Trump também defendeu as tarifas como uma maneira de garantir a soberania do país. Ele chegou a sugerir que as tarifas poderiam um dia substituir o imposto de renda, uma ideia que parece implausível à luz das realidades financeiras, já que o governo arrecada trilhões anualmente através da tributação da renda.
Desconexão com a Realidade
Um aspecto significativo que ficou ausente no discurso foi a falta de reconhecimento sobre a percepção do povo americano. Uma pesquisa divulgada horas antes do discurso mostrou que seis em cada dez americanos acreditam que o país está pior do que há um ano. Trump não fez menção a essa preocupação, nem houve um momento de empatia em relação àqueles que lutam com o custo de vida.
O Simbolismo do Evento
O evento também teve um tom simbólico, com Trump recebendo a seleção americana de hóquei masculino, campeã olímpica, e apresentando a várias pessoas que representam histórias de superação e heroísmo. Essa estratégia retórica visa criar uma conexão emocional com o público, apesar da desconexão evidente nas questões econômicas.
Imigração e Segurança
A imigração, que sempre foi um tema central para Trump, foi novamente abordada em seu discurso. Ele falou sobre as cidades sobrecarregadas por imigrantes e crimes cometidos por estrangeiros em situação irregular. Embora os dados mostrem uma queda significativa nas entradas ilegais, a narrativa de Trump ignora os relatos de deportações controversas que têm gerado comoção nacional.
Política Externa: Silêncio Sobre a Ucrânia
Na esfera da política externa, Trump foi breve. Ele celebrou um acordo de libertação de reféns, mas não fez menção à situação na Ucrânia, o que pode ser visto como uma indicação da priorização de questões internas em detrimento de compromissos tradicionais com aliados europeus.
O Que Fica Após o Discurso
Com uma duração recorde, o discurso de Trump cumpriu sua função ritual, mas não abordou a tensão central que o presidente enfrenta: a discrepância entre a realidade vivida pela maioria dos americanos e a narrativa otimista que ele apresentou. Essa desconexão pode ser o dado mais relevante que o discurso deixou, pois revela um abismo entre o que é dito e o que realmente é sentido pela população.
O Estado da União de 2026 poderá ser lembrado não apenas pela sua duração, mas pela maneira como ignorou questões cruciais que afetam o cotidiano dos cidadãos. Essa diferença entre a narrativa presidencial e a percepção popular pode ser um fator decisivo no futuro político de Trump.