A ausência de Dennis Carvalho numa homenagem da TV Globo, em outubro do ano passado, ainda ecoa nos bastidores. O diretor e ator, que dedicou praticamente a vida inteira à emissora, foi um dos primeiros nomes a ganhar estrela na chamada “calçada da fama” do canal. Ao lado de gigantes como Nathália Timberg, Laura Cardoso, Renato Aragão e Tony Ramos, Dennis teve seu nome eternizado. Mas não apareceu.
Na época, a emissora explicou de forma genérica que ele não pôde comparecer por “motivos diversos”. A frase vaga chamou atenção. Nos corredores, muita gente estranhou. Afinal, foram 47 anos de serviços prestados. Quase meio século ajudando a construir novelas, séries, especiais. Não era pouca coisa.
Antes de morrer, Dennis resolveu falar. E falou com uma sinceridade que poucos têm coragem. Em entrevista à revista Veja, em 2023, ele abriu o coração sobre a maneira como foi desligado da casa. O contrato fixo terminou em 2022, dentro da nova política da Globo de trabalhar apenas por obra certa. Até aí, tudo bem — mudanças acontecem, o mercado muda, a televisão também. Mas o que pegou mesmo foi o jeito.
Segundo ele, quem deu a notícia foi Ricardo Waddington, então diretor dos Estúdios Globo. Um profissional que, nas palavras de Dennis, havia sido seu assistente no passado e aprendido muito com ele. “Ele me chamou na sala e disse: ‘Nós não vamos renovar seu contrato, querido. Preferimos te chamar por obra certa, está bom?’”, contou.
E aí vem aquela coisa… o que responder numa hora dessas? Dennis disse que apenas falou “está bom” e saiu. Simples assim. Mas por dentro, não devia estar nada simples.
Ele classificou a política de contratos por obra como precipitada e até injusta. Achava que a emissora poderia ter encontrado um meio-termo, sem perder tanta gente experiente. E dá pra entender o ponto dele. Num momento em que a televisão aberta enfrenta concorrência pesada do streaming, cortar laços históricos pode soar como frieza demais.
“Bate um vazio, claro”, desabafou. A frase é curta, mas pesada. Quem já saiu de um lugar onde passou décadas sabe do que ele estava falando. Não é só o crachá que vai embora, é o convívio, o café no estúdio, as piadas internas, os amigos de anos. Ele disse sentir saudade das pessoas e admitiu guardar uma certa mágoa. Achava que merecia mais respeito. E talvez merecesse mesmo.
O último trabalho dele na Globo foi em 2023, participando de um especial pelos 60 anos da emissora. Um número simbólico. Sessenta anos de história, quase cinquenta com a presença dele em diferentes funções. É uma relação que se mistura com a própria trajetória da TV brasileira.
Neste sábado, 28 de junho, veio a notícia que ninguém queria dar. O Hospital Copa Star, no Rio de Janeiro, confirmou a morte de Dennis Carvalho, aos 78 anos. A causa não foi divulgada. Em nota, o hospital disse que não tinha autorização da família para informar mais detalhes e se solidarizou com amigos, fãs e parentes por essa perda irreparável.
A morte encerra um capítulo importante da dramaturgia nacional. Dennis foi daqueles profissionais que viveram intensamente os bastidores, os sets de gravação, as discussões criativas. Era firme, às vezes duro, mas apaixonado pelo que fazia.
Fica uma sensação estranha no ar. Entre homenagens póstumas e lembranças emocionadas, também permanece a conversa sobre como tratamos nossos veteranos. Em tempos de mudanças rápidas, contratos flexíveis e decisões corporativas, histórias como a de Dennis fazem a gente parar e pensar. Porque, no fim das contas, televisão é feita de gente. E gente sente.