A fala do apresentador Carlos Massa, mais conhecido do público como Ratinho, acabou virando um dos assuntos mais comentados da quarta-feira (11). Durante o programa exibido pelo SBT, ele comentou a eleição da deputada Erika Hilton, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL-SP), para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. E foi aí que a polêmica começou.
No meio do programa, Ratinho disse que, na visão dele, a escolha da parlamentar para o comando da comissão não seria “muito justa”. O apresentador argumentou que existem muitas mulheres no Brasil que poderiam assumir o posto e questionou o fato de uma mulher trans ocupar a função. Segundo ele, Erika Hilton “não é mulher”, mas sim uma pessoa trans.
A declaração foi feita ao vivo, diante do público do programa, e rapidamente começou a circular nas redes sociais. Em poucos minutos, trechos do comentário já estavam sendo compartilhados por usuários de diferentes plataformas. A repercussão foi grande — e, como costuma acontecer nesses casos, vieram críticas, apoio e muito debate.
Ainda durante a atração, Ratinho tentou explicar melhor o que quis dizer. Ele afirmou que não tem nada contra pessoas trans, mas declarou que, na opinião dele, para ser considerada mulher seria necessário ter útero, menstruar e passar por experiências biológicas que fazem parte da vida de quem nasce mulher.
Foi nesse momento que ele soltou uma frase que também chamou atenção: disse que mulher “tem que menstruar e ficar chata três ou quatro dias”. O comentário, claro, também gerou reações. Parte do público considerou a fala desrespeitosa ou antiquada, enquanto outros defenderam o apresentador dizendo que ele apenas expressou uma opinião pessoal.
Mesmo assim, Ratinho fez questão de afirmar que não tem nada contra Erika Hilton. Pelo contrário. Ele chegou a elogiar a deputada, dizendo que ela fala bem e tem boa desenvoltura. “Ela é boa de prosa”, comentou o apresentador durante o programa.
Só que, logo depois, ele voltou ao ponto que levantou a discussão: questionou se a parlamentar teria vivência suficiente para compreender os desafios enfrentados por mulheres que nasceram biologicamente mulheres. Segundo ele, não é fácil ser mulher, e isso envolveria experiências que uma pessoa trans não teria passado.
A fala rapidamente ganhou repercussão fora da televisão. Nas redes sociais e em portais de notícia, o assunto tomou proporção nacional. Foi então que Erika Hilton decidiu tomar uma medida jurídica.
De acordo com informações divulgadas pela jornalista Mônica Bergamo, colunista da Folha de S.Paulo, a deputada entrou com uma representação no Ministério Público Federal (MPF). No documento apresentado, Hilton afirma que as declarações do apresentador podem ser consideradas transfóbicas.
Segundo o pedido encaminhado ao órgão, as falas exibidas em rede nacional não atingiriam apenas a parlamentar, mas também mulheres trans e travestis de forma coletiva. A deputada argumenta que esse tipo de discurso acaba reforçando preconceitos e discriminação contra esse grupo.
No processo, Erika Hilton pede que Ratinho e o SBT sejam condenados ao pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos. O valor, segundo a representação, seria destinado como forma de reparação pelo impacto das declarações.
Além da indenização, a parlamentar também solicita que o apresentador e a emissora façam uma retratação pública. O pedido é que essa retratação aconteça no mesmo espaço televisivo em que as declarações foram feitas, com tempo equivalente ao utilizado para os comentários que geraram a polêmica.
Procurado após toda a repercussão, o SBT divulgou uma nota oficial. No comunicado, a emissora afirmou repudiar qualquer tipo de discriminação ou preconceito, dizendo que esses comportamentos vão contra os princípios e valores da empresa.
O canal também declarou que as opiniões expressas por Ratinho durante o programa não representam necessariamente a posição institucional da emissora. Segundo o SBT, as declarações estão sendo analisadas pela direção da empresa, que deve tratar o assunto internamente.
Enquanto isso, o debate segue forte nas redes sociais e na imprensa. Como acontece em muitas polêmicas recentes envolvendo televisão e política, o episódio virou mais um capítulo de uma discussão que parece longe de terminar. E, pelo visto, ainda vai render bastante conversa nos próximos dias.