O fígado é um daqueles órgãos que trabalham muito… e reclamam pouco. Muita gente nem lembra que ele está ali, fazendo um monte de coisa importante no corpo. Entre as funções dele estão filtrar toxinas do sangue, ajudar na digestão e metabolizar nutrientes que vêm da alimentação. O problema é justamente esse: quando o fígado começa a adoecer, ele quase sempre fica “quieto”. Ou seja, pode passar um bom tempo com algum problema sem dar sinais muito claros.
Segundo a hepatologista Natalia Trevizoli, que atua no Hospital Sírio-Libanês em Brasília, os primeiros sintomas de problemas no fígado costumam ser bem vagos, daqueles que qualquer pessoa poderia confundir com cansaço do dia a dia. E aí mora o perigo.
Entre os sinais iniciais mais comuns estão um cansaço constante, aquela fraqueza que parece não passar nunca, perda de apetite e até episódios de náusea. Algumas pessoas também relatam uma sensação de estufamento na barriga ou um desconforto do lado direito do abdômen. Nada muito específico. Às vezes a pessoa acha que é só má alimentação ou estresse, e segue a vida.
Com o passar do tempo, porém, quando o fígado vai sofrendo mais danos, os sinais começam a ficar mais evidentes. A pele e os olhos podem ficar amarelados, um quadro conhecido como icterícia. A urina pode escurecer bastante e as fezes ficam mais claras, quase esbranquiçadas em alguns casos. Outro sintoma que muita gente estranha é uma coceira generalizada pelo corpo, sem motivo aparente.
Mesmo assim, é curioso perceber que muitas doenças do fígado acabam sendo descobertas meio por acaso. Em exames de rotina, por exemplo. Um simples exame de sangue pode mostrar alterações nas chamadas enzimas hepáticas, o que já acende um alerta para investigar melhor.
A hepatologista Karla Maggi, que atende no Hospital Santa Paula em São Paulo, explica que o fígado hoje sofre muito com o estilo de vida moderno. Não é só o álcool que prejudica o órgão, como muita gente imagina.
Na prática, vários hábitos comuns do dia a dia acabam sobrecarregando o fígado sem que a pessoa perceba. Um deles é o consumo frequente de alimentos ultraprocessados. Produtos industrializados, cheios de conservantes e açúcar escondido, estão cada vez mais presentes na rotina. Refrigerantes, sucos de caixinha, biscoitos… tudo isso pode impactar a saúde hepática.
Outro ponto é aquele costume de “beliscar” o dia inteiro. A pessoa come um pouco aqui, outro pouco ali, quase não dá intervalo para o corpo trabalhar direito. Some a isso noites mal dormidas e níveis altos de estresse — coisa que muita gente vive atualmente — e pronto, o fígado começa a sofrer.
O sedentarismo também pesa nessa conta. Ficar muito tempo parado, sem atividade física, contribui para o ganho de peso. E aí aparece um problema que vem crescendo no mundo todo: a esteatose hepática, mais conhecida como gordura no fígado.
De acordo com Natalia Trevizoli, o excesso de peso, principalmente na região abdominal, é um dos principais fatores ligados a esse quadro. Hoje, a gordura no fígado já é considerada uma das causas mais comuns de inflamação hepática no planeta. E não, não acontece só com quem bebe álcool.
Outro fator que preocupa os médicos é o uso frequente de medicamentos sem orientação. Analgésicos, suplementos e até anabolizantes podem sobrecarregar o fígado quando usados de forma contínua ou em doses inadequadas.
Por isso, os especialistas insistem em um ponto importante: cuidar do fígado precisa ser uma atitude preventiva. Não é algo para pensar apenas quando aparecem sintomas.
Segundo Karla Maggi, pessoas com histórico familiar de doenças hepáticas, quem usa medicamentos regularmente ou quem percebe aumento da gordura abdominal deveria dar uma atenção maior a esse tipo de avaliação médica.
Os exames geralmente são simples. Um exame de sangue pode medir enzimas como TGO, TGP e GGT, que ajudam a identificar possíveis alterações. A ultrassonografia abdominal também é bastante utilizada para observar o fígado. Em alguns casos mais específicos, o médico pode pedir uma elastografia hepática, exame que avalia a rigidez do órgão.
No fim das contas, os médicos costumam repetir o mesmo conselho: manter hábitos equilibrados ainda é a melhor forma de proteger o fígado. Alimentação mais natural, sono de qualidade e alguma atividade física durante a semana fazem uma diferença enorme. Parece básico, e até meio óbvio… mas muita gente só percebe isso quando o corpo começa a dar sinais de que algo não vai muito bem.