Nas urnas, a esquerda virou situação e a direita, mudança

Entendendo o Voto Brasileiro: Antissistema ou Antipolítica?

Nos últimos anos, especialmente durante as eleições, passei muito tempo analisando dados, redes sociais e as comunidades digitais para tentar entender como algumas mensagens conseguem alcançar pessoas de diferentes grupos, enquanto outras ficam restritas a suas bolhas. No entanto, talvez o resultado das eleições de 2026 exija uma mudança na forma como olhamos para o cenário político atual.

A Confusão Entre Antipolítica e Antissistema

Após as eleições, uma interpretação que se repetiu foi a ideia de que esta foi uma eleição marcada pela antipolítica. Contudo, eu considero que essa análise confunde dois conceitos distintos. Na verdade, o que vimos foi uma eleição de forte caráter antissistema.

Essa diferenciação é mais do que apenas uma questão de palavras. A antipolítica, por sua vez, busca figuras como empresários, técnicos, escritores ou celebridades, que não são políticos. Já o antissistema representa uma rejeição à ordem estabelecida, às instituições que regulam a política e aos grupos que são vistos como seus defensores.

O Antissistema e o Profissional Político

É interessante notar que um político profissional pode se posicionar como antissistema. Essa talvez seja uma das chaves para compreendermos o Brasil atual. Os números falam por si só. Em 2010, Dilma Rousseff conquistou 46,91% dos votos válidos, enquanto José Serra ficou com 32,61% e Marina Silva com 19,33%. Já em 2014, Dilma teve 41,60%, Aécio Neves 33,55% e Marina 21,32% novamente.

Em 2026, vimos Flávio Bolsonaro e Lula somando impressionantes 92,19% dos votos. O espaço para um terceiro candidato realmente competitivo diminuiu drasticamente. Por exemplo, Augusto Cury, que se apresentou como um outsider, conseguiu apenas 2,89% dos votos, o que é uma clara demonstração de como o perfil do eleitor mudou.

O Novo Perfil do Eleitor

Embora figuras como Tiririca, que recebeu mais de 1,3 milhão de votos em 2010, tenham visto sua popularidade despencar para cerca de 5,5 mil votos em 2026, novos nomes surgiram com força. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton, todos eles, apesar de se apresentarem de maneira inovadora, são políticos que atuam de forma intensa, construindo suas identidades e pautas diariamente.

O que se percebe é que o tradicional outsider perdeu espaço para um insider que se apresenta como alguém que está lutando contra o sistema. A distinção entre eleições proporcionais e majoritárias é fundamental para entender essa dinâmica. Em uma eleição para deputado, o foco pode ser em nichos específicos e na mobilização de comunidades em torno de uma pauta. Em contrapartida, na eleição presidencial, a necessidade é de unir grupos diversos e dialogar com diferentes perspectivas.

A Importância da Comunicação

A comunicação se torna um desafio maior quando se tenta aglutinar opiniões divergentes. Isso ajuda a entender por que a última eleição não pode ser vista apenas como uma rejeição à política tradicional. Algumas famílias políticas, como os Bolsonaros, mantiveram-se firmes, enquanto outras desapareceram.

O eleitor parece mais preocupado em saber de que lado do sistema os candidatos estão, do que há quanto tempo estão na política. Uma inversão significativa nos últimos anos é que a direita começou a adotar a linguagem da contestação, enquanto a esquerda passou a defender as instituições e as regras estabelecidas, o que a fez parecer parte do sistema que antes pretendia mudar.

Uma Nova Geração de Eleitores

Ademais, a questão geracional deve ser considerada. Para muitos jovens, o PT representa um governo e um establishment que dominaram suas vidas. Essa nova geração não vê a esquerda como a defensora da rebeldia, um espaço que foi disputado e conquistado pela direita, que aprendeu a utilizar as redes sociais de forma efetiva.

Um dado interessante é que 46% dos brasileiros sonham em empreender, de acordo com uma pesquisa do Instituto Locomotiva. Para muitos na classe C, a busca por autonomia e controle do próprio tempo substituiu o desejo por estabilidade que antes era garantida por um emprego fixo.

Desconexão com o Eleitorado

Entretanto, há uma desconexão clara entre a esquerda e a realidade de grande parte do eleitorado. Algumas visões de mundo são tratadas como algo a ser corrigido, o que gera um estranhamento. O conceito de “família em conserva” pode ser visto como uma representação desse desencontro, onde a visão dos eleitores é ridicularizada em vez de compreendida.

Esse eleitor busca uma mudança no sistema que o inclui. Para aqueles que são percebidos como parte desse sistema, o desafio é convencê-los de que é possível transformar a estrutura de dentro. Isso vai muito além de apenas apresentar políticos carismáticos diante das câmeras.

Conclusão

Por fim, a eleição proporcional permite que se dialogue com aqueles que já estão convencidos, enquanto a presidencial exige um esforço para construir pontes com os que ainda se mostram céticos. Não existem danças virais no TikTok que possam resolver a complexidade da interpretação do Brasil. O que os eleitores realmente esperam é uma explicação clara de como o sistema pode mudar, acompanhada de uma humildade para reconhecer falhas. Antes de aprender a comunicar com esse novo Brasil, é crucial aprender a ouvi-lo.



Recomendamos